Tinha um Drummond sobre a mesa

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Anderson Lobo

 

Cheguei a casa, após certo dia de trabalho. Em cima da mesa da cozinha, um Drummond. Olhei com algum desdém e me dirigi ao quarto. Antes, passei pela sala, onde minha filha assistia à TV. Cumprimentei-a com um sorriso.

Voltei do quarto e acabei passando pela cozinha novamente. Ia para o banheiro. E tinha um Drummond… sobre a mesa. Apenas, passei meus olhos mecanicamente e fui tomar um bom e morno banho.

Lá pelas seis, Teresa chegou. Eu acabara de sair do banho.

— Teresa, tem um Drummond sobre a mesa… — disse imediatamente para minha esposa, após saudá-la com um beijo.

— Deve ser coisa da Julieta. — respondeu prontamente e sem nenhuma surpresa.

Em meu alheamento ao que soa porosidade e comunicação, fiquei em silêncio e acreditei ter colocado uma pedra naquele assunto. Assim, me distraí nas horas seguintes, lendo algo no jornal e ajudando Teresa no preparo de um jantar.

Jantamos lá pelas oito e aquele Drummond nos fez companhia, sobre a mesa, imóvel. Ninguém foi capaz de dizer uma palavra sobre aquilo. Teresa e eu, mastigando aquela comida com certa frieza e Julieta com algum olhar sonhador próprio de alguém que vive o auge da adolescência.

Passava das nove, quando fui para cama. Teresa ainda via algo na TV do quarto, quando me deitei ao seu lado. Mas, estranhamente, nenhum sono me veio. Rolei algumas vezes pela cama e, sem saber o porquê, me lembrei daquele Drummond novamente.

Percebendo minha inquietação, minha mulher me lançou um sutil olhar reprovador.

— Vou à cozinha beber alguma água! — eu lhe disse com certa culpa.

Passei pela sala onde Julieta conversava com alguém pelo celular. Não lhe dei muita atenção, embora ela sorrisse timidamente para mim. A cozinha estava escura. Sem rodeios, acionei o interruptor e a lâmpada acendeu. Meu coração disparou, pois Drummond continuava no mesmo lugar, como se me esperasse.

“E agora José?”, pensei uma vez. E, antes de pensar novamente, deixei-me levar pelo instinto. Puxei uma cadeira e me sentei. Encarei Drummond com certo olhar de reverência e o abri.

“Alguma Poesia”, só então percebi o título. E fiquei estático, como se não soubesse o que fazer. “Tenho apenas duas mãos… e um Drummond.”, disse em um sussurro, como se aquelas palavras fossem mágicas.

E meus olhos se aventuraram, com natural cautela, pelas linhas iniciais daquele Drummond. E, quando dei por mim, já me enveredava pelo sentimento do mundo contido naqueles versos.

Foi noite algo sublime. Naveguei por mares de poemas e confidências daquele itabirano. Li e reli quantas vezes me foi possível, até adormecer. E quando a madrugada lançou seus tentáculos pela janela da cozinha, eu me encontrava envolto em tantos arrebatamentos, que julguei ser apenas um sonho quando ouvi alguém me chamar.

— José! — era a voz de Teresa. — A noite esfriou!

Ergui os olhos, quando finalmente me dei conta de que minha esposa me estendia uma mão. Retribui, com um sorriso e a abracei com alguma volúpia, enquanto olhava, de soslaio, para Drummond em cima da mesa. E sentimento, algo de paz, tomou conta do meu peito.

“Só pode ser coisa da Julieta!”, pensei enquanto caminhávamos para o quarto.

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