Quero uma sandália

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Pedro Galuchi

“Quero uma sandália!” Disse o Homem com voz titubeante à Moça da loja.

A Moça tentou desviar o olhar ao ver os trajes velhos que escondiam o dono da voz. Homem com aparência de morador de rua.

“Quanto custa aquela?” Insistiu a voz saída da boca coberta pela barba e bigode há muito sem corte, mas limpa.

“Catorze e noventa”, respondeu a Moça dirigindo a atenção à Cliente ao lado.

“Posso experimentar?” Apoiando as mãos suadas no balcão de vidro.

“Qual o número?” A Moça, vendo-se acuada.

“Acima de quarenta e dois.”

“O senhor calça qual número, afinal?” Sentindo possibilidade de escapar.

“Acima de quarenta e dois”, afirmou o Homem, categórico.

“Como assim, acima de quarenta e dois?”. Encaminhando a paciência aos estertores.

“A senhorita nunca ouviu falar que pé de pobre não tem tamanho? Até quarenta e um eu raspo o calcanhar no chão, acima disso serve qualquer uma.” Sentiu-se ironia.

Impossível à Moça esconder leve sorriso ante a lógica simplória e feroz. Mudou de atitude. Pegou par na prateleira e ofereceu ao Homem. Antes de soltar as sandálias, arriscou: “O senhor está com os pés limpos, não?”

Sem sentimento de ofensa, reagiu também sorridente, demonstrando saber: “Claro! Tanto quanto os lavados por Jesus antes da Páscoa”, apontando os pés calçados por rotas sandálias de cores diferentes. Uma delas com a tira substituída por uma amarração de barbantes.

Libertas as sandálias e rapidamente calçadas, o Homem sorridente afirmou à Moça: “Perfeita! Nem machuca o dedão.”

“O senhor vai levar?” Sentimento de alforria ante a situação incômoda, denunciada pelo olhar da Gerente, postada no caixa, censurando a presença do Homem.

“Tem um modelo mais bonito?” Indagou o Homem, vasculhando as prateleiras com olhar de criança namorando presentes de Natal.

A Moça na corda bamba, entre o desespero da perda de tempo e a curiosidade de aonde chegaria a conversa.

“Aquela”. Apontou o dedo de unha comprida em direção a um par mais colorido.

“Aquela é mais cara.” Voz da Moça desanimando.

“Quanto?” Desafiou o Homem.

“Vinte e quatro e noventa.”

“Por que é mais cara? O material é o mesmo”, argumentou demonstrando certa irritação.

“É que esta…” desistindo de explicar, corrigiu… “É o preço dela. Mais cara, mesmo.”

“Faz vinte?” Regateou.

A Gerente decidiu salvar a Moça e interveio bruscamente, mas gentil, dentro do mister de quem sobrevive do comércio: “Meu senhor, posso ajudar?”

“Posso pagar até vinte pela sandália. É o que tenho”, mostrando um pacotinho de moedas, retirado vagarosamente do bolso da bermuda.

Brotou angústia coletiva na loja.

Gerente e Moça entreolharam-se, quase cúmplices em abrirem mão da pequena comissão de uma eventual venda.

“Tudo bem! Tudo bem! Não podem, não podem. Eu esmolo mais um pouco e depois venho comprar”, disse firme o homem como é pertinente a quem decide.

Dirigiu-se à saída, interrompido pela Cliente, que aguardava pacientemente sua vez: “Vamos fazer o seguinte: pago a diferença!” E ofereceu moedas retiradas do porta-níqueis de couro.

Gerente e Moça sorriram, aliviadas do peso que lhes era retirado.

“Não quero favores”, contra atacou o Homem, em tom alto.

Desespero de toneladas caiu.

“Aceite como esmola, então.” Rebateu, placidamente, a Cliente.

Desarmado de argumentos, o Homem submeteu-se. Estendeu as mãos em concha cuidando que nenhuma caísse ao chão.  Manifestou um agradecimento com a cabeça, balbuciando algo.

Comungou-se respiração profunda.

Recuperada a dignidade, virou-se para a Moça, colocou um punhado de moedas sobre o balcão e surpreendeu: “Veja-me a de catorze.”…“Quarenta e quatro”… “Não precisa embrulhar”.

Prontamente atendido pela Moça, tirou as rotas dos pés, calçou as novas e finalmente saiu calmamente da loja admirando os pés. Deixou para trás, além das sandálias velhas, três pares de olhos cruzando-se, à busca de entender.

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